"Sendo
seres de palavras, constituídos na e pela linguagem a
partir dos vínculos narrativos que recebemos ou que recolhemos
da experiência, não podemos prescindir das narrativas.
ouvir e contar histórias que nos aconteceram e que aconteceram
com o outro, reais ou imaginárias, vão formando
a nossa subjetividade. Mesmo parcas ou fragmentadas, são
elas que dão forma e conteúdo à nossa história,
são elas que nos vão fazendo ser o que somos.
"(GUIMARÃES; CORSINO, 2006, p. 57)
Contar
histórias para as crianças não é só
uma forma de inseri-las na cultura letrada. A narração
de histórias ajuda na constituição da própria
subjetividade e identidade do indivíduo. Por isso, selecionei
quatro histórias que podem ser contadas, recontadas e vão
despertar o gosto pela leitura desde cedo.
A
história "Boi Zambu e o musquitim de direção"
de Nye Ribeiro (Ed. Roda & Cia) trata de um tema importante na educação
infantil e também ao longo da vida. A busca pela autonomia e
a liberdade de fazermos nossas próprias escolhas. Zambu era um
boi desanimado que vivia sem rumo na vida, "esparramado que nem
um colchão velho". Quando o Musquitim de Direção
passa a ajudá-lo a seguir seus caminhos, ele aprende que precisa
vencer seus medos, tomar suas decisões e confiar em seus sentidos.
Zambu, então, se transforma e passa a seguir seus caminhos por
conta própria. Não é isso que buscamos ensinar
as crianças? A confiar e acreditar em si mesmas, vencer seus
medos e se tornar autônoma? É um aprendizado por toda a
vida. É importante lembrar que essas questões não
precisam se tornar reflexão com as crianças. A magia da
arte é justamente essa: tratar de temas complexos de forma subjetiva.
"Vira-Lata"
de Stephen Michael King (Ed. Brinque-book) é encantadora. Conta
a história de um cachorro que "não era de ninguém"...
Vivia pelas ruas, sem comida, passando frio e sem ter um lugar para
dormir. Até que encontra um abrigo. Mas a história não
termina aí. Afinal, ele não pode ficar no abrigo! O leitor
sofre e torce pelo vira-lata se envolvendo na narrativa. Ao contar a
história para as crianças, vemos seus olhos e rostos atentos
e expressando pena e medo pelo cachorro. É um livro que desperta
emoções também através das ilustrações.
Após contar a história, o professor pode pedir às
crianças que recontem através das ilustrações.
Além disso, é uma ótima história que permite
a reescrita com a turma através de um texto coletivo.
"Aqui
está tão quentinho!" é um livro dos
coreanos Choi Min-Ho e Jang Seon-Hye (Ed. Callis). O livro faz parte
da coleção "Tan Tan" que busca ensinar conceitos
matemáticos por meio de histórias divertidas. Nesse livro,
o objetivo é ensinar a contar de um a dez e a sequência
numérica. Depois dessa breve apresentação, quem
já leu sobre literatura infantil descartaria o livro de cara,
afinal a boa obra de literatura infantil não deve ter como objetivo
ensinar algo. No entanto, o livro ultrapassa esse objetivo pedagógico.
A narrativa se passa num bosque onde vivem diversos animais e um ogro
que não tem amigos. Quando o inverno rigoroso chega, todos procuram
um lugar para se proteger do frio. No final uma surpresa encanta as
crianças... As belas ilustrações e a busca pela
sobrevivência acabam fazendo da narrativa algo mais do apenas
ensinar a contar. Além disso, narrativas com animais sempre atraem
as crianças mesmo que eles não sejam tão conhecidos
do leitor brasileiro (são javalis, faisões e guaxinins
nesse bosque gelado).
Já
a história "O pequeno coelho branco"
é uma adaptação de um conto popular português
por Xosé Ballesteros com ilustrações de Óscar
Villán. O drama do coelho que tem sua casa invadida por uma cabra
já é conhecida do público brasileiro através
das contações de história de Roberto Carlos (pelo
menos aqui em Belo Horizonte, o "Cabra Cabrês"). A narrativa
atrai as crianças pelo humor, a aventura e os animais que aparecem
ao longo da história. Na escola, esse livro pode ser dramatizado
já que possui diversos personagens que dialogam com o coelhinho.
As crianças vão adorar. Além disso, as rimas internas
nas falas da cabra são uma ótima oportunidade de chamar
a atenção das crianças nas semelhanças fonéticas
entre as palavras. Dependendo da atenção e interesse das
crianças podem surgir listas de palavras que rimam e uma reescrita
coletiva da história.
Referência:
GUIMARÃES,
Daniela e CORSINO, Patrícia. Prática Educativa
da Língua Portuguesa na educação infantil.
Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2006.
Valéria
de Oliveira Alves - 22/05/09