Poesia Reunida
de Wilson Rocha
Zé Mario Editor e Fundação
Biblioteca Nacional
Rio de Janeiro - 270p.
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Em surdina, longe da cultura barulhenta do carnaval, a Biblioteca Nacional
e Zé Mario editor lançaram “POESIA REUNIDA” de Wilson
Rocha, mais de quinze anos depois do seu último livro de poesia A
Forma do Silêncio, também poesia reunida até aquele ano.
Poeta baiano nascido em Cochabanba (Bolívia) em 1921 que vive quase
exilado na solidão de sua própria casa, no bairro do Rio vermelho,
em Salvador, mas sem perder o entusiasmo pela cultura grega-romana e o bom
humor, que faz lembrar um velho cego chamado Borges e sua ironia em
afirmar que nunca precisou da realidade. O genial Duchamp também enfrentava
a vida e a arte com o humor e o riso. Wilson Rocha é um caso à
parte na poesia baiana, solitário, fora do tempo e do lugar. “Meu
lugar é o mundo” disse certa vez o extravagante Oscar Wilde. E um
poeta culto que imagina a poesia como uma investigação da razão,
produto de muitas leituras, sem negar o sensível, não precisa
de pátria, sua geografia é a antiguidade clássica.
Uma poesia depurada,
silenciosa construída com uma “perícia artesanal no lidar com
a língua” (Ildásio Tavares) habitada por um certo sentido
clássico. Ler os poemas de Wilson e contemplar as esculturas
de mármore de um Sérgio Camargo, por exemplo, são experiências
que alimentam a inteligência do leitor/espectador. “A Grécia
fornece a Wilson Rocha referentes culturais, evocações e toda
atmosfera que se resolve no plano da linguagem...” afirma João
Carlos Teixeira Gomes no prefácio do livro. Um moderno clássico,
com uma atualidade de dar inveja aos contemporâneos, ou um mágico
que revela a beleza misteriosa resistente ao tempo e encanta mais ainda, quando
canta a beleza feminina na sutileza de suas imagens. “Lá ao longe
a casa na colina / lá havia manacás e avencas / e uma mulher
assediada pelo vento, / uma mulher possuída / pelos próprios
cabelos.” Ou na maneira de abordar com requinte e elegância
temas tão banais como o natal: “Não sei que sinos distantes
/ o Natal ressuscita. / É a música tocando em nós / o
sentimento que nos visita./...”
Poucos são
os que lêem livros de poesia, sempre foi assim. O que assusta hoje,
é uma espécie de educação voltada para
distração em detrimento do que exige o trabalho do pensamento.
No meio de tanto entretenimento a poesia passa despercebida, foi relegada
a um oficio inútil. Uma obra poética pacientemente elaborada
ainda não foi devidamente divulgada, estudada e situada dentro da literatura
brasileira. O que de surpreendente essa poesia acrescenta a nossa tradição
moderna? (se podemos falar em tradição moderna). Um rico objeto
de estudo para uma tese de mestrado ou doutorado, mas as nossas escolas de
letras, (na Bahia em particular) com seus instrumentos teóricos e
metodológicos, ainda ignoram a qualidade e o rigor dessa poesia.
POESIA REUNIDA de Wilson Rocha é um livro de suma importância
para o meio literário brasileiro que este apressado e impreciso comentário
nem de longe sonha registrar.
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Poemas de Wilson Rocha do livro POESIA REUNIDA
DA MULHER
Comme l’arome d’une idée
Valéry
Longa e clara cabeleira
no flanco dos quadris,
chama secreta ressurgindo
no ritmo flexível do sexo.
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A VOZ FEMININA
Nem a escrita dos pássaros
nem os clarins da eternidade
desafiam assim o tempo,
a frescura do azul
e a doce transparência do cristal.
como é branca e nua a voz
feminina.
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COMO A ORQUÍDEA
As formas da orquídea
Embriagam os sentidos
E atingem a plenitude.
Esplêndidas reentrâncias
Na doçura das pétalas,
Feminina, de tão íntima.
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A SAN JUAN DE LA CRUZ
Só os amantes e os deuses
Conhecem as forças cósmicas
Do amor sem limites
E da fé íntima dos grandes místicos.
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OS DIAS ARDENTES
Como a fértil harmonia da mulher
Ou o inquietante aroma dos frutos
Acariciados pela língua do vento
A lucidez é uma imagem nua
Onde tudo sonha
Onde tudo evola-se
E treme como água
A escorrer sobre o umbigo.
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PALAVRAS ALADAS
Palavras aladas do amor –
Prazeres e inquietações –
Como a época de grandeza incalculável
Em que dançávamos como Dionísio
E sentíamos a misteriosa e profunda
Sexualidade das mulheres de Safo
Que entendiam o amor como eternidade.