Apesar
de Vidas Secas, aparecer como o grande marco da carreira
do alagoano Graciliano Ramos, Angústia, romance
ignorado por parte da crítica na época do lançamento
(1936) é considerado uma das obras primas do autor, que entrega
ao leitor uma leitura densa sob o ponto de vista do narrador Luís
da Silva.
A narrativa de
Angústia traz total estranhamento em seu primeiro
contato: é um romance que requer bastante atenção
e cautela do leitor, visto que há fluxo de consciência
em boa parte da história, além das diversas temáticas
existentes na trama, que passeiam desde o existencialismo aos constantes
símbolos, e concomitantemente, abrindo espaço para uma
narrativa primorosamente cinematográfica.
O romance é
narrado em tom confessional e memorialista, e por fins didáticos,
alguns críticos atribuem-lhe um lugar na trilogia densa e fortemente
existencialista, completada por Caetés (1933) e São Bernardo
(1938). O três romances, narrados em primeira pessoa, apresentam
personagens num intenso conflito, buscando respostas para seus atos,
indagando o porquê dos acontecimentos que os afligem. Tais narrativas
são semelhantes a diários íntimos. Em cada um deles,
o narrador se desnuda e se desvenda, expondo as dolorosas confissões
de culpas dramáticas.
Luís
da Silva, protagonista do romance, veio do interior (mundo rural) para
a capital. Ele é um anônimo qualquer na cidade. Em seu
cotidiano medíocre (segundo o relato do mesmo), escreve para
o jornal o que lhe pedem, atendendo a encomendas, de forma quase robótica.
Ele se considera um intelectual fracassado num mundo sem lugar na prateleira
de heróis: vive mediocremente, engaveta escritos, não
progride nem em sua vida profissional, carregando o fardo de ser um
reles funcionário público, nem em sua vida afetiva, mantendo
um noivado prolongado pela falta de condições para a efetivação
do casamento. Marina, a noiva, acaba se envolvendo com outro homem,
fato que vai desencadear um pesadelo na vida do protagonista.
Inserido num mundo
onde a voz do dinheiro fala mais alto, afunda-se em dívidas,
aluguéis atrasados e empréstimos tomados no intuito de
agradar a amada, Marina. Ele a pede em casamento mas ela o deixa por
outro mais bem sucedido, Julião Tavares. Este sim, filho de comerciantes
bem sucedidos, audacioso e competente na arte de ganhar dinheiro. Julião
Tavares possui cacife para comprar Marina com todas as ditas que ela
deseja: jóias, sedas, idas ao cinema e ao teatro.
Luís da
Silva se vê impossibilitado de conviver com sua rotina desmotivada
e sem novidades. Passa a conviver com um crescente ciúme que,
gradativamente, o impele ao crime. Nesse clima de angústia, registrado
magistralmente pela pena de Graciliano coincidem prisões interiores,
marcadas pela vivência pessoal do personagem narrador e o mal-estar
de sobreviver em uma sociedade da qual se sente expelido.
Luís acompanha
a vida de Marina, seguindo-a feito uma sombra, principalmente depois
que Julião Tavares a abandona grávida. O ódio a
Julião cresce de forma arrasadora, semeando a idéia de
que só a morte iria dar fim aquele suplício: neste caso,
a morte de Julião Tavares, que representa tudo aquilo que ele
não podia ser, e com isso, surgindo como uma grande ameaça.
Oprimido pelos acontecimentos, Luís da Silva persegue seu rival,
que andava às voltas com nova amante. Gradativamente amplia-se
seu drama interior, sente-se metade, diminuído diante da prepotência
de Julião Tavares e, enquanto a angústia o alucina, não
tem condições de raciocinar claramente, mas percebe que
não há outra saída a não ser o crime.
Há neste
momento da narrativa um processo de construção interessante
do narrador personagem Luís da Silva, que se vê no momento
do assassinato como o seu instante de auto-estima, de realização
pessoal, tornando-se o herói do seu próprio relato. É
nesse contexto que Graciliano constrói a saga do protagonista
de Angústia, construído de forma diferente dos apresentados
em outras narrativas como São Bernardo e Caetés.
Nas últimas
páginas do romance, após ter cometido o crime, Luís
da Silva imerge em uma angustiante crise psicológica que o comprime
e faz dele um ser alucinado e preso a um mundo em que as portas se fecham
e não existem saídas. No romance, temos o efeito de circularidade
também encontrado com maestria em Vidas Secas: a história
encerra justamente como começou, numa narrativa circular, portanto,
diferente do encontrado na trajetória de Fabiano e sua família,
apresentada de forma circular através de quadros, de contos distintos.
No caso de Angústia, temos o fluxo de consciência, possibilitando
o narrador pensar aleatoriamente, indo e vindo de forma não ordenada.
Baseado em pesquisas, podemos dizer que o fluxo de consciência
é uma técnica literária introduzida por James Joyce,
em que o monólogo interior de um ou mais personagens é
transcrito. Nesta técnica, a narrativa apresenta-se como um fluxo
de consciência que intercepta presente e passado, quebrando os
limites espaço-temporais. No fluxo de consciência há
uma quebra da narrativa linear, onde já não é tão
claro distinguir entre as lembranças da personagem e a situação
presentemente narrada. Na literatura brasileira, merece destaque a obra
de Clarice Lispector e Graciliano Ramos (especialmente em Angústia).
Alguns questionamentos abordados na narrativa de Luís da Silva:
Alguns dados são de fundamental importância para entendimento
maior do romance Angústia. A primeira delas
é o existencialismo, uma corrente filosófica e literária
que destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade
do ser humano. O existencialismo considera cada homem como um ser único
que é mestre dos seus atos e do seu destino.
Baseado em pesquisas,
podemos inferir que o existencialismo afirma o primado da existência
sobre a essência, segundo a célebre definição
do filósofo francês Jean-Paul Sartre: "A existência
precede e governa a essência." Essa definição
funda a liberdade e a responsabilidade do homem, visto que esse existe
sem que seu ser seja pré-definido. Durante a existência,
à medida que se experimentam novas vivências redefine-se
o próprio pensamento (a sede intelectual, tida como a alma para
os clássicos), adquirindo-se novos conhecimentos a respeito da
própria essência, caracterizando-a sucessivamente. Esta
característica do ser é fruto da liberdade de eleição.
Sartre, após ter feito estudos sobre fenomenologia na Alemanha,
criou o termo utilizando a palavra francesa "existence" como
tradução da palavra alemã "Dasein", termo
empregado por Heidegger em Ser e tempo.
Após a
Segunda Guerra Mundial, uma corrente literária existencialista
contou com Albert Camus e Boris Vian, além do próprio
Sartre. É importante notar que Albert Camus, filósofo
além de literato, ia contra o existencialismo, sendo este somente
característica de sua obra literária. Vian definia-se
patafísico.
Vale ressaltar
que Graciliano Ramos vai manter contato com a literatura de Camus ao
traduzir um dos seus romances. Na leitura de Angústia, podemos
perceber claramente que Luís da Silva enxerga a vida como uma
série de lutas. O individuo, no existencialismo (e no romance)
é forçado a tomar decisões e frequentemente as
escolhas sao ruins.
Angústia
e outras literaturas (e artes):
Refletindo sobre
esse sentimento de culpa, encontramos no livro um movimento de consciência
angustiada que o aproxima do poema “A mão suja”,
de Carlos Drummond de Andrade.
Minha mão está
suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar
A água está
podre.
Nem me ensaboar
O sabão é
ruim.
A mão está
suja,
suja há muitos anos
Lendo o poema, entendemos melhor o romance e o seu irremediável
desespero, tão surdo, cerrado e profundo como o de muitos versos
do grande poeta mineiro. Desespero oriundo do sentimento de um drama
não só pessoal, mas também coletivo. Drama de todos,
de tudo; da vida malfeita, dos homens mal vividos. Da velha Germana,
“que dormiu meio século numa cama dura e nunca teve desejos”;
de José Baía, matando sem maldade e de riso claro; de
seu Evaristo, enforcado num galho de carrapateiro; do Lobisomem e suas
filhas. Gente acuada, bloqueada, esmagada pela vida, espremida até
virar bagaço, sem entender o porquê disso tudo. E a dureza,
a incrível dureza desse pequeno mundo sem dinheiro nem horizonte,
cuja existência é uma rede simples e bruta de pequenas
misérias, golpes miúdos e infinitas cavilações.
Aprofundando a
análise e passando desse limbo de vidas mesquinhas para os círculos
mais ásperos dos motivos, talvez pudéssemos encontrar,
pelo menos em parte, uma explicação sexual para a consciência
deturpada de Luís da Silva. Com efeito, há no livro três
aspectos sexuais do seu abafamento. Na infância, a segregação
imposta pelo pai, a solidão em que se desenvolveram os sonhos
e os germes da inadaptação.
Sonhos e desejos,
acumulados na infância, não se libertam na mocidade. Pobre,
vagabundo, humilhado, Luís vive sem mulheres, represando luxúria,
em conseqüência.
Finalmente, quando
encontra Marina, vem Julião Tavares e a carrega, deixando-o na
angústia maior do ciúme, alimentado pelo desejo insatisfeito.
Essa tensão dramática do sexo reprimido percorre quase
todas as páginas. Luís tem a obsessão da intimidade
dos outros, fareja safadezas, vê em tudo manifestações
eróticas e vestígios de posse. O problema do recalque
e o conseqüente sentimento de frustração estão
marcados por três símbolos fálicos: as cobras da
fazenda do avô, os canos de água de sua casa e a corda
com que enforca Julião Tavares.
Para fazer surgir
esse mundo atroz, Graciliano Ramos modifica a técnica anterior.
Como em Caetés e São Bernardo,
a narrativa é em primeira pessoa; mas só em Angústia
podemos falar propriamente em monólogo interior, em palavras
que não visam ao interlocutor e decorrem de necessidade própria.
Nos dois primeiros, há uma separação nítida
entre a realidade narrada e a do narrador, mesmo quando (em São
Bernardo) este se impõe à narrativa; em ambos, os figurantes
são respeitados como tais e as cenas apresentadas como unidades
autônomas. Em Angústia, o narrador tudo
invade e incorpora à sua substância, que transborda sobre
o mundo. Daí uma apresentação diferente da matéria.
O diálogo,
por exemplo, que antes era o principal instrumento na arquitetura das
cenas (chegando a parecer excessivo em Caetés
e pelo menos abundante em São Bernardo), se reduz a pouco. A
narrativa rompe amarras com o mundo e se encaminha para o monólogo
de tonalidade solipsista. O devaneio assume valor onírico, e
o livro parece ao leitor “...as horas de um longo pesadelo...”
Além disso,
surge um elemento novo: o recurso à evocação autobiográfica,
juntando-se, freqüentemente, por associação, às
coisas vistas e à experiência cotidiana, para constituir
o fluxo da vida interior. Cada acontecimento é um estímulo
para Luís da Silva repassar teimosamente fatos e sentimentos
da infância e da adolescência, que pesam na sua vida de
adulto como sementeira longínqua das suas ações
e do seu modo de ser.
Neste aspecto,
cabe uma interrogação: até que ponto há
elementos da vida do romancista no material autobiográfico da
personagem? "Ninguém dirá que sou vaidoso referindo-me
a esses três indivíduos. — disse ele no discurso
em que agradeceu o jantar do cinqüentenário — porque
não sou Paulo Honório, não sou Luis da Silva, não
sou Fabiano.
Quanto à
primeira e à terceira personagens, não há dúvida.
Da segunda, nota-se que a sua meninice possui aspectos semelhantes à
narrada em Infância. Só que reduzida a elementos da etapa
anterior aos dez anos, quando morou na fazenda, à sombra do avô
materno (aqui, paterno) e na vila de Buíque; aproveitou, pois,
a parte do sertão para dar maior aspereza às raízes
da personagem. Pelas Memórias do Cárcere,
sabemos ainda que lhe emprestou emoções e experiências
dele próprio, inclusive o desagrado pelo contato físico
e o episódio com a filha da dona da pensão, no cinema,
que o obceca. E não é difícil perceber que deu
a Luís da Silva algo de muito seu: a vocação literária
e o ódio ao burguês.
Luís da
Silva mantém a mesma posição de Macabéa,
protagonista de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.
Ambos personagens estão diante dos olhares da capital, inseridos
na sociedade de forma sufocante, ressaltando que no caso de Luís
da Silva, temos um perfil de homem que tem consciência das coisas,
enquanto Macabéa segue a linha inocente, sendo manipulada pelas
pessoas que a cercam. Citando fontes sobre Clarice, podemos afirmar
que ela adota o discurso regionalista em A hora da estrela,
algo incomum em suas obras. Através da personagem Macabéa,
a autora descreve uma nordestina que tenta escapar da miséria
e do subdesenvolvimento, abandonando Alagoas pela possibilidade de melhores
condições de vida no Rio de Janeiro. Clarice foi muitas
vezes criticada por se afastar da literatura regional emergente do modernismo.
Em A hora da estrela, ela foge do "hermetismo" característico
de suas primeiras obras e alia sua linguagem à vertente regionalista
da segunda geração do modernismo brasileiro. Na época
da publicação, o crítico literário Eduardo
Portella falou do surgimento de uma "nova Clarice", com uma
narrativa extrovertida e "o coração selvagem comprometido
com a situação do Nordeste brasileiro.
Há algumas
afirmações do contista e critico Hélio Polvora
em relação ao romance Angústia
que valem ser citadas aqui: segundo informações, a narrativa
apresenta similaridades com a estética surrealista. O Surrealismo
foi um movimento artístico e literário surgido primariamente
em Paris dos anos 20, inserido no contexto das vanguardas que viriam
a definir o modernismo, reunindo artistas anteriormente ligados ao Dadaísmo
e posteriormente expandido para outros países. Fortemente influenciado
pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud (1856-1939), o
surrealismo enfatiza o papel do inconsciente na atividade criativa.
Seus representantes mais conhecidos são Max Ernst, René
Magritte e Salvador Dalí no campo das artes plásticas,
André Breton na literatura e Luis Buñuel no cinema.
Há recursos
cinematográficos como fade in, que é (aumentar
gradualmente) e "fade out", (diminuir gradualmente), mas não
só em filme, em qualquer circunstância. No caso da literatura,
temos passagens do romance, principalmente no ponto de vista do narrador
ao ver a mulher que vai fazer o aborto em Marina, e algumas cenas antes
da morte de Julião Tavares, que esses recursos oriundos do cinema
se apresentam na narrativa.
Simbologia
no romance de Graciliano Ramos: a corda, a cobra e os ratos
Há alguns
símbolos citados com freqüência no romance, como a
corda, a cobra e os ratos. De acordo com pesquisas no dicionário
de símbolos literários, a cobra, além de apresentar
o fálico, um constante confronto pessoal do personagem protagonista,
vai ainda representar a falsidade (Julião Tavares?). A corda,
assim como a cobra, representa de certa forma o fálico, portanto,
fornece também uma idéia de busca da redenção,
salvação. Os ratos a sujeira que o personagem enxerga
à sua volta e a já citada necessidade de uso da água,
para lavar a sujeira que lhe toma.
Outros comentários:
I
É um livro
fuliginoso e opaco. O leitor chega a respirar mal no clima opressivo
em que a força criadora do romancista fez medrar a personagem
mais dramática da moderna ficção brasileira - Luís
da Silva. Raras vezes encontraremos na nossa literatura estudo tão
completo da frustração; um frustrado violento, cruel,
irremediável, que traz em si reservas inesgotáveis de
amargura e negação.
Daí a “fuligem” referida, que encobre, suja, sufoca
e provoca desejos impossíveis de libertação. Luís
da Silva sente-se sujo fisicamente, por isso a obsessão da água
purificadora percorre o livro, em que o banheiro desempenha um papel
importante.
Alguns dias
depois, achava-me no banheiro, nu, fumando... Abro a torneira, molho
os pés. (...)
O banheiro
da casa de seu Ramalho é junto, separado do meu por unia parede
estreita. (...)
Lá
estava Marina outra vez nova e fresca, enchendo a boca e atirando
bochechos nas paredes. (...)
Este sentimento de abjeção volta-se sobre ele próprio;
Luís da Silva anula-se pela autopunição e só
consegue equilibrar-se assassinando o rival, equilíbrio precário
que o deixa arrasado, mas de qualquer modo é a única maneira
de afirmar-se.
Tecnicamente, Angústia é o romance mais complexo de Graciliano
Ramos. É a história de um frustrado, Luís da Silva,
homem tímido e solitário, que vive entre dois mundos com
os quais não se identifica. Produto de uma sociedade rural em
decadência, Luís da Silva alimenta um nojo impotente dos
outros e de si mesmo. Apaixonado por uma vizinha, Marina, pede-a em
casamento e lhe entrega as parcas economias para um enxoval hipotético.
Surge Julião Tavares, que tem tudo o que falta a Luís:
ousadia, dinheiro, posição social, euforia e uma tranqüila
inconsciência. A fútil Marina se deixa seduzir sem dificuldades
e Luís, amargurado, vai nutrindo impulsos de assassínio
que o levam, de fato, a estrangular o rival.
Em certo sentido,
a morte de Julião lavares representa para Luís da Silva
a desforra que tira contra todos, mas que em seguida perde o aparente
significado de vitória:
Tive um deslumbramento.
O homenzinho da repartição e do jornal não era
eu. Esta convicção afastou qualquer receio de perigo.
Uma alegria enorme encheu-me. Pessoas que aparecessem ali seriam figurinhas
insignificantes, todos os moradores da cidade seriam figurinhas insignificantes.
Tinham-me enganado. Em trinta e cinco anos haviam-me convencido de que
só me podia mexer pela vontade dos outros. Os mergulhos que meu
pai me dava no poço da pedra, a palmatória de mestre Antônio
Justino, os berros do sargento, a grosseria do chefe da revisão,
a impertinência macia do diretor; tudo virou fumaça. Julião
Tavares estrebuchava.
*
Leonardo Campos, 25 anos, graduando em Letras Vernáculas pela
Universidade Federal da Bahia. Pesquisador na área de cinema,
cultura e literatura. Membro do grupo de pesquisa Da invenção
à reinvenção do nordeste, Instituto de Letras,
UFBA. Realizador de eventos culturais em Salvador. Colunista dos Portais
Pituba e Imbui, assinando duas colunas, uma de cinema e a outra sobre
cultura.
Email de contato: leodeletras@hotmail.com