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O primeiro romance de Machado de Assis
Por Valéria de Oliveira Alves


Um dos maiores escritores brasileiros é, sem dúvida, Machado de Assis. Nascido em 1839 no Morro do Livramento no Rio de Janeiro, teve uma infância de mulato pobre de subúrbio, e tornou-se um dos mais respeitados intelectuais da Corte. Em 1896 fundou a Academia Brasileira de Letras e morreu em 1908 com honras fúnebres de chefe de Estado.

Consagrado como grande romancista e contista, seus dois primeiros livros foram de poesias: "Crisálidas" (1864) e "Falenas" (1870). Em 1870, publica "Contos Fluminenses" e só em 1872 surge seu primeiro romance "Ressurreição".

Quando se fala nos romances de Machado de Assis logo nos vêm à cabeça "Dom Casmurro" (1900) ou "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881). Os dois livros já viraram obras consagradas em nossa literatura. No entanto, é preciso conhecer mais suas outras obras, principalmente seu primeiro romance.

"Ressurreição" foi uma obra bem recebida pelo público e pela crítica da época. Machado de Assis ainda vivia quando foi lançada sua segunda edição (1905). Nas duas edições ele escreve uma "advertência". Na primeira advertência Machado escreve: "Não sei o que deva pensar deste livro; ignoro sobretudo o que pensará dele o leitor. A benevolência com que foi recebido um volume de contos e novelas, que há dois anos publiquei, me animou a escrevê-lo. É um ensaio. Vai despretensiosamente às mãos da crítica e do público, que o tratarão com a justiça que merecer" . De ensaio, "Ressurreição" não tem nada, afinal, já nesse primeiro romance estão os traços de sua maneira de escrever definitiva. Na advertência da segunda edição, o escritor escreve apenas: "Este foi o primeiro romance, escrito aí vão muitos anos. Dado em nova edição, não lhe altero a composição nem o estilo, apenas troco dois ou três vocábulos, e faço tais ou quais correções de ortografia. Como outros que vieram depois, e alguns contos e novelas de então, pertence à primeira fase da minha vida literária".

O enredo do livro é simples, conta a história do Dr. Félix, um solteirão de 36 anos que, apesar de não acreditar no amor, se apaixona por uma viúva, a bela Lívia. O romance é, entretanto, atribulado devido ao temperamento desconfiado e inseguro de Félix. O final? Só mesmo lendo o livro para descobrir.

Segundo o respeitado crítico Afrânio Coutinho, o livro é "o mais moderno dos seus romances iniciais. Nele encontram-se alguns dos traços definitivos de sua fisionomia: a penetração psicológica, a preocupação da análise, o monólogo interior, o desenvolvimento alinear da intriga, a narrativa complexa".

Em "Ressurreição" o leitor também encontra o artifício narrativo que aparece nos demais textos de Machado: a intimidade do narrador com o leitor. Observe o trecho da página 54: "Aqui podia acabar o romance muito natural e sacramentalmente, casando-se estes dois pares de corações e indo desfrutar a sua lua-de-mel em algum canto ignorado dos homens. Mas para isso, leitor impaciente, era necessário que a filha do coronel e o Dr. Meneses se amassem...". É, sem dúvida, o Machado que nos encanta e seduz. Leitura imperdível para quem já conhece ou não o escritor.

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