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A HISTÓRIA DE WOYZECK

Por Paulo Avelino

- BÜCHNER, Georg. Woyzeck. São Paulo: Hedra, 2003. 119p. Tradução, apresentação e notas de Tércio Redondo.

Um menino perde os pais e se torna ajudante de um fabricante de perucas. Não se firma na profissão e para escapar à fome entra para o exército. Passa doze anos pontuados por detenções por indisciplina. É dispensado. Arranja uma amante, que tem outros homens. Desempregado, pede esmolas e dorme ao relento. Numa crise de ciúmes ele mata a amante. É a história de Woyzeck, o original. Foi um ex-soldado decapitado em 1824 por ter matado uma mulher. Um laudo referente à sua sanidade foi parar na biblioteca de um certo senhor cujo filho era estudante de medicina. O rapaz escrevia peças e ficou impressionado com a história.

Buchner nasceu numa cunha da história: de um lado a tradição feudal, a herança toda para o filho mais velho, os títulos, a ordem determinada por Deus e encimada por ele. Do outro o capitalismo, o homem-que-faz-a-si-mesmo, a recusa aos valores, as heranças divididas, as rápidas mudanças de enriquecimento e empobrecimento.
Sua geração tinha já a herança da Revolução Francesa e recusava o mundo que via, uma recusa que não se definia bem. Participou de uma Sociedade para os Direitos do Homem. Decepcionou-se com a luta política. Viveu pouco (1813-1837) e escreveu peças.

Woyzeck não foi uma das peças que chegou a completar. Escreveu-a em letras miúdas, em fragmentos dispersos, e décadas depois a letra estava tão esmaecida que se teve de usar um preparado químico para lê- la. Tanto que por muito tempo a peça foi conhecida por nome errado, Wozzeck. É encenada e lida até hoje primeiro por escapar daquele esquema das peças shakespeareanas, de uma seqüência lógica de fatos se sucedendo nas cenas. É composta de quadros frouxamente ligados.
Franz Woyzeck, como o original, é soldado, pobre, tem uma amante. Faz um bico cortando talos de madeira que seriam usados para açoitar seus colegas soldados. Aceita dinheiro de um médico para uma experiência: comer apenas ervilhas. O médico exulta ao ver e anotar a degradação em seu corpo. Sua mulher lhe é infiel. Seu superior lhe chama de imoral pois não é casado. O trabalho é degradante, as autoridades são prostituídas mais que constituídas e a vida familiar é um paraíso às avessas.

O autor das notas Tércio Redondo cita um laudo médico feito para Woyzeck o original que pode se aplicar a Woyzeck o personagem e também ao mundo em que vivemos. O médico culpa a incontinência e o ócio do acusado como as causas de seu crime. Nem lhe passa pela cabeça a miséria e a alienação. Não é dilema velho. Em todo o mundo e inicialmente nos EUA os direitos e pensões dos pobres tem sido paulatinamente tirados alegando-se que esses não precisam de dinheiro mas de moral.

Recentemente foi encenada no Brasil, estrelada por Matheus Nachtergaele, direção de Cibele Forjaz e adaptação de Fernando Bonassi, com o nome Woyzeck, o Brasileiro. O aspecto moderno da peça é enfatizado quando os atores encenam a peça com os diversos quadros determinados por sorteio, o que eles chama de Woyzeck Desmembrado.

Está cheio de Woyzecks por aí. Talvez até no nosso espelho.

Para entrar em contato com Paulo Avelino escreva para avelino@roadnet.com.br ou acesse sua página
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