Sitedeliteratura
www.sitedeliteratura.com

 

Para conhecer José Régio
por Sônia Rodrigues

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901.

Fez os estudos secundários em Povoa do Varzim e no Porto. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico foi, no entanto, como poeta que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Seu livro de estréia foi Poemas de Deus e do Diabo (1925).

Foi poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico.

É representante da segunda fase do modernismo português, que tinha o objetivo de traçar caminhos ousados e originais para a poesia lusa, como já acontecia nos demais países europeus.

Na poesia de José Régio, podemos detectar as seguintes tendências da poesia modernista:

A arte é vista como uma criação subjetiva e livre para manifestar os sentimentos do autor desvinculando-se do conceito de belo..

A razão se torna objeto de descrédito e a realidade é distorcida, originando abstrações.

Há repúdio às convenções e repressões sociais, usando-se a arte como contestação.

Nos poemas de fundo religioso dos primeiros livros do autor costuma haver uma identificação entre o eu lírico e a figura de Cristo, ambos irmanados pela dor, pelo sofrimento e pelo sentimento de inadaptação ao mundo.

 

Cristo
(José Régio)

Quando eu nasci, Senhor! já tu lá estavas,
Crucificado, lívido, esquecido.
Não respondeste, pois, ao meu gemido,
Que há muito tempo já que não falavas.

Redemoinhavam, longe, as turbas bravas,
Alevantando ao ar fumo e alarido.
E a tua benta Cruz de Deus vencido,
Quis eu erguê-la em minhas mãos escravas!

A turba veio então, seguiu-me os rastros;
E riu-se, e eu nem sequer fui açoitado,
E dos braços da Cruz fizeram mastros...

Senhor! eis-me vencido e tolerado:
Resta-me abrir os braços a teu lado,
E apodrecer contigo à luz dos astros!

 

A crítica lhe foi indiferente e até hostil, mas Régio não desistiu.

Na cidade de Alto Alentejo ele escreveu a maior parte de suas obras, e, nos momentos de lazer vagueava pelos campos a arrecadar antiguidades, tendo verdadeira paixão pelos crucifixos.

Aposentado, retorna a sua cidade natal em 1962, vindo a falecer em 22 de dezembro de 1969.

Poesia – Poemas de Deus e do Diabo (1925); Biografia (1929); As Encruzilhadas de Deus (1936); Fado (1941); Mas Deus É Grande (1945); A Chaga do Lado (1954); Filho do Homem (1961); Cântico Suspenso (1968)

Teatro – Três Máscaras (1934); Jacob e o Anjo (1937); Benilde ou a Virgem-Mãe (1947); El-Rei D. Sebastião (1949); A Salvação do Mundo (1954); Mário ou Eu Próprio - O Outro (1957)

Romance – Jogo da Cabra Cega (1934); Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941); O Príncipe com Orelhas de Burro (1942); A Velha Casa (5 vols. 1945/1966); Histórias de Mulheres (1946)

Contos/Novelas – Há Mais Mundos (colectânea/1962)

Ensaio – Em Torno da Expressão Artística (1940); Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa (1941); Três Ensaios sobre Arte (1980, edição póstuma)

Cântico negro
José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Fragmento do poema As Barreiras:

“Sim, cai toda semente em meu jardim.
O vento que a traz a leva.
Senhor, tem piedade de mim!
Deixa-me a tua Luz ou a minha Treva!”

 

Bibliografia:

Detetives Literários – revista do Clube dos Poetas do Litoral – Santos/SP

Instituto Camões
www.instituto-camoes.pt/escritores/camoes.htm

Site de Porto Alegre
http://www.motoclubevirtual.com.br/rs_portoalegre.htm

Revista do Clube dePpoetas do Litoral:
http://www.jornalexpress.com.br/noticias/cadernos.php?id_jornal=8822&caderno=95


Voltar à página principal

Sitedeliteratura © 2002 - 2005: Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo deste site
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do SitedeLiteratura.com