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Literatura Americana:

A Cantiga de Ninar de Chuck Palahniuk
        
    O americano Chuck Palahniuk é reconhecido por muitos como o autor de Clube da luta (livro de 1996 que virou filme em 1999 pelo cineasta David Fincher com Brad Pitt e Edward Norton nos papéis principais e perturbou leitores e expectadores de diversos países), mas sua obra não precisa de histórico.  Cantiga de ninar (Editora Rocco, 278 páginas, R$ 36,50) fala por si só.
    Já pelo título o livro subverte a lógica. O nome sugere inocência, mas a cantiga de ninar a que o título se refere é uma canção relacionada à morte de inúmeras pessoas. O narrador é Carl Streator, um jornalista que investiga casos de síndrome de morte infantil súbita para uma série de reportagens que pretende publicar. Ele logo descobre que algumas das mortes têm um estranho detalhe em comum: antes de morrer, os bebês ouviram seus pais lerem o mesmo trecho de um determinado livro raro. Trata-se de uma compilação de canções tradicionais de culturas antigas, cujos versos da página 27 são capazes de matar qualquer pessoa que os ouça.
    Para testar a cantiga mortífera, o jornalista a lê para seu chefe. No dia seguinte ele não aparece no trabalho e dias depois descobre-se que ele realmente morreu. Os versos da cantiga grudam na mente de Streator como se fossem uma canção pop fabricada para o sucesso, de modo que ele não consegue parar de matar as pessoas, qualquer uma que atravesse seu caminho torna-se vítima dos versos. Já nem é preciso pronunciá-los para matar, basta pensar neles. Streator torna-se, assim, um serial killer involuntário, desesperado para cessar a matança.
    Para destruir a página 27 de todas as 300 cópias existentes do livro de versos, ele percorre os EUA com Helen Hoover Boyle (uma das mães que mata seu filho sem querer e que também conhece toda a verdade sobre a cantiga de ninar), Mona (secretária de Helen) e Ostra (namorado de Mona).
    O livro torna-se interessante não só pela história fantástica (que tem dois momentos narrativos diferentes e que só ao final o leitor consegue esclarecê-los), mas por essa reflexão sobre o ser humano, sua relação com o poder e com o cotidiano "louco" e barulhento em que vivemos atualmente.
"Esses barulhômanos. Esses calmófobos.
... Até no banheiro, até tomando uma chuveirada, você consegue oubir o falatório no rádio por cima da sibilar da ducha .... Ou um dinossauro voador pré-histórico despertado por um teste nuclear está prestes a destruir o pessoal do andar de baixo ou a televisão deles está alta demais ... Num mundo em que as juras não tem nenhum valor, em que fazer um juramento nada significa, em que as promessas são feitas para serem quebradas, seria agradável ver as palavras de volta ao poder" (pág. 72)

"Pergunto no que esta viagem está se transformando.
- No que sempre foi. - Ostra passa uma mecha por uma moeda de I Ching. - Uma grande luta pelo poder. Você quer manter o mundo como ele é hoje, papai, só que com você no comando.
Helen, diz ele, também quer o mesmo mundo, só que com ela no comando. Toda geração quer ser a última. Toda geração odeia as novas tendências musicais que não consegue compreender. Nós detestamos renunciar às redeas da nossa cultura. ... Já eu sou a favor de apagar tudo, eliminar os livros e as pessoas e recomeçar do zero. Sou a favor de ninguém no comando. ... " (págs. 173/4)


    Cantiga de ninar é uma crítica ao capitalismo, à cultura americana de massa, ao vazio existencial contemporâneo e uma reflexão que busca trazer de volta o poder da palavra na sociedade visual em que vivemos. Tudo isso, entretanto, é o pano de fundo para a construção da literatura de Chuck Palahniuk. Nascido nos EUA em 1961, estudou jornalismo, mas preferiu tentar a vida como mecânico antes de se dedicar à literatura. De devorador de livros, Palahniuk se tornou escritor. Depois de publicar alguns contos em pequenas revistas, lançou seu primeiro livro em 1996 (Clube da luta).
     Lançado em maio desse ano, Cantiga de ninar também é uma boa dica de leitura para quem quer conhecer um pouco da literatura americana contemporânea. Se Palahniuk veio para ficar, só mesmo os leitores e o tempo podem dizer...

Valéria de Oliveira Alves - julho/2004.
 
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