Quando
se fala em Japão, logo nos vem à memória as bombas
atômicas que destruiram duas cidades (Hiroshima e Nagasaki),
deixando mais de 200 mil mortos e famílias japonesas em todo
o mundo despedaçadas. O filme “Rapsódia
em agosto” de 1991 agora pode ser encontrado em lojas
de departamentos a um preço convidador e nos ajuda a conhecer
um pouco da cultura japonesa e lembrar das dores dessas bombas da
Segunda Guerra Mundial.
O termo “rapsódia”
significa, segundo o dicionário, “fragmentos de cantos
épicos, entre os gregos; trecho de composição
poética; composição musical formada de diversos
cantos tradicionais ou populares de um país”. O filme
do diretor Akira Kurosawa é realmente uma composição
poética que trata de uma dor que não cicatriza. Ao mesmo
tempo é uma narrativa que mostra as tradições
japonesas frente às novidades do mundo moderno.
Vamos saber um pouco do filme,
pela sinopse: “Enquanto seus pais vão visitar um parente
doente no Havaí, quatro adolescentes japoneses ficam na casa
de sua avó, em Nagasaki. A velha senhora ainda sofre com a
perda do marido, quando a bomba atômica explodiu no local e
a deixou viúva, assim como milhares de outras pessoas. Clark
é uma americano que, ao tomar conhecimento da perda, decide
visitar a família e pedir desculpas pelo ocorrido, deixando
frente a frente duas gerações diferentes sobre temas
como o perdão e o arrependimento.”
O
filme entrelaça passado, presente e futuro em cenas bonitas
e sensíveis. A perda de seu marido pela bomba atômica
acaba sendo uma ferida que não se cicatriza na senhora Kane.
Os dias que passa com seus netos, entretanto, tornam-se importantes
para mostrar-lhes que o passado ainda faz parte de suas vidas. Para
isso, ela conta histórias da família, mantêm os
ritos tradicionais, além de dividir com eles sua dor. Essa
convivência mostra aos netos a importância de valorizar
as tradições, o passado e os laços familiares.
Um parente norte-americano rico acaba conhecendo a história
do avô que morreu por causa da bomba e resolve visitar a tia
(Sra. Kane) em Nagasaki. Através desse parente norte-americano
o diretor discute a relação dos Estados Unidos com sua
história de ter bombardeado o Japão. A bomba pode ser
considerada uma “página virada” na história
americana, mas não esquecida pelos descendentes de famílias
que sofreram os horrores da tragédia. No entanto, no discurso
da Senhora Kane, os próprios japoneses precisam “perdoar”
e considerar que a culpa é “da guerra” e não
dos governantes que estavam no poder.
Na literatura, é claro
que esse episódio também sensibilizou poetas, como Carlos
Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, que traduziram
em palavras o horror que o mundo sentiu ao saber das bombas. Vamos
conhecer dois poemas famosos sobre a tragédia que até
hoje sensibiliza o mundo.
A
Rosa de Hiroshima
(Vinícius de Morais)
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
A bomba
(Carlos Drummond de Andrade)
A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido
A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna
A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
A bomba
não tem preço não tem lugar não tem
domicílio
A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente
onde não está
A bomba
mente e sorri sem dente
A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada
A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar
A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem
ação
A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
A bomba
faz week-end na Semana Santa
A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos
interplanetários
A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose,
de verborréia
A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa
A bomba
envenena as crianças antes que comecem a nascer
A bomba
continua a envenená-las no curso da vida
A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai
A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera
A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil
valetes de ouro,
cobalto e ferro além da comparsaria
A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis,
etc.
A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave
A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e
paralíticos
A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar
A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
A bomba
saboreia a morte com marshmallow
A bomba
arrota impostura e prosopéia política
A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba
é podre
A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é
vedado
A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo
de fraternidade
A bomba
tem um clube fechadíssimo
A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel
A bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de
Paris
A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação,
átomos de paz
A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas
ou tachistas
A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger
velhos e criancinhas
A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer
de câncer
A bomba
é câncer
A bomba
vai à Lua, assovia e volta
A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação
em cadeia
A bomba
está abusando da glória de ser bomba
A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba
o instante inefável
A bomba
fede
A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões
de cartolina
A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve
A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.