HAICAI –
UMA ATITUDE PERANTE A VIDA
Sonia Rodrigues*
Convido o leitor a fazer um mergulho na cultura
japonesa.
A essência do haicai á a percepção
do momento presente, buscando na natureza os elementos para a criação
individual.
Define-se o haicai como um poema de origem japonesa,
sem rima, com dezessete sílabas, distribuídas em três
versos com, respectivamente cinco, sete e cinco sílabas, contendo
uma referência à estação do ano através
do kigo – ou palavra da estação. Esta é a forma,
apenas. A essência do haicai é contemplativa, manifestando
gratidão pela admirável obra de arte que é a vida em
todo o planeta, encontrando, no transitório, a essência do eterno.
Em outras palavras, as flores da primavera são transitórias
mas a primavera das flores é eterna.
Foi Bashô quem levou o haicai à plenitude
artística. Seu nome verdadeiro era Matsuo Munefusa, e ele viveu no
Japão no século XVII. Era filho de samurais agricultores e,
aos 23 anos, abandonou o campo para dedicar-se à literatura. Mais tarde,
tornou-se monge budista. Plantou à frente de sua cabana uma bananeira,
em japonês, Bashô, daí advindo o seu pseudônimo.
Foi Bashô quem tornou o haicai a poesia mais popular de sua pátria
até hoje. Para Bashô, poesia é sinônimo de virtude
e a verdade é a essência da arte; para atingir a verdade, é
necessário que o poeta receba, através dos sentidos, a realidade
tal qual ela é. Para exemplificar, cito um de seus haicais:
Nada mais gracioso/ pela estrada da montanha/ uma violeta silvestre.
Dizia o mestre: “o que diz respeito ao pinheiro,
aprenda do pinheiro, o que diz respeito ao bambu, aprenda com o bambu.”
Atrás do Haicai existe a cultura milenar de um
povo – a gentileza, a compaixão, a aceitação do imutável.
É preciso adquirir esta atitude perante a vida para depois entender
os poemas. Bashô elevou o haicai a uma filosofia, tornando-o um caminho
de iniciação de disciplina e exercício espiritual. O
haicai é uma conquista: é a realização da sabedoria.
Neste contexto, viver sabiamente significa despojar-se de ambições
e de vaidades, adquirindo a capacidade de simplesmente estar ali e perceber.
É preciso que o leitor seja “tocado” por este jeito de ver a vida.
Diferentemente da poesia ocidental, o haicai não
intelecualiza nem explica, ao contrário, em sua simplicidade e sutileza
apenas sugere a idéia. O leitor portanto, ao buscar
um significado que ficou implícito, participa do poema. Um haicai é
um caminho que se percorre não sendo deste mundo, e sim estando
no mundo.
Esta breve explicação permitirá
que cada um de vocês agora leia estas pequenas jóias literárias
com uma atitude observadora, serena, “apenas estando aqui”, apreciando
o momento, pois a vida está inteira em cada momento.
Chuva
de primavera -
Todas as coisas
parecem mais
bonitas.
Chyio-ni
Presentes de Ano Novo.
Até
o bebê de colo
Estende
as mãozinhas!
Issa
O rio de verão -
Que
alegria atravessá-lo
De sandálias
à mão.
Buson
Dia de primavera -
Os
pardais no jardim
Tomam
banho de areia.
Onitsura
* A autora é haicaista participante do grupo de Haicais Caminho
das Águas – Santos
Bibligrafia:
Palhas de arroz – Bashô – Aliança Cultural Brasil – Japão
Introdução ao Haicai – Teruko Oda e Francisco Handa - Aliança
Cultural Brasil – Japão
Haicai, a poesia do Kigô - Masuda Goga, Teruko Oda e Eunice Arruda
- Aliança Cultural Brasil – Japão .